A ruptura com o falo na toxicomania

Coordenação: Cassandra Dias
Coordenação Adjunta: Cláudia Formiga

 

Para o ano de 2026, o Núcleo de Toxicomania do IPSIN dará continuidade ao seu programa de investigação iniciado em 2025 acerca da toxicomania enquanto uma solução de ruptura.

Tomando como tema norteador o 5 Colóquio Internacional TyA que ocorrerá em Paris, continuaremos interrogando o lugar da droga frente à relação sexual que não existe.

Como operador simbólico, o falo sintetiza o fato de que não existe, para a espécie dos falantes, um saber prévio que trace um caminho determinado até a satisfação. Não é o que acontece no reino animal, onde as escolhas se orientam pelo instinto, o comportamento sexual é ditado previamente e a escolha de um parceiro não está atravessada pelo mal-entendido.

No reino dos falantes, onde não há um saber no real que nos oriente acerca do sexual, o que impera é o campo do mal-entendido.

Nesse contexto, os chamados novos sintomas apresentam uma posição subjetiva para os impasses com o sexual e a castração distanciada do uso do significante e do sintoma, sendo a toxicomania uma dessas respostas, que consiste em uma experiência de negação da castração e de ruptura com o significante fálico.

O casamento com o falo assegura a inscrição do sujeito na partilha sexual, possibilitando sua localização como homem ou mulher ao se dirigir a um parceiro. Isso não significa que o usuário de drogas não se relacione sexualmente — ele o faz. No entanto, pode-se considerar que seu verdadeiro parceiro subjetivo é o próprio corpo, fonte de toda satisfação. Afinal, é justamente nos efeitos da substância sobre o corpo que ele experimenta como certo o encontro com o gozo.

Eric Laurent (1988), no artigo “Três observações sobre a toxicomania”, afirma: “Não é uma formação de compromisso, senão uma formação de ruptura”. (LAURENT, 1997, p. 16).

Portanto, interrogar o casamento com o pequeno pipi assim como a sua ruptura, nos permite interpelar a subjetividade de nossa época, tendo como horizonte a premissa da ruptura fálica e a primazia do caráter autista do gozo cínico.

Para tanto, daremos continuidade ao percurso iniciado no ano passado a partir da discussão entre adição, sintoma e corpo. Partiremos da pragmática lacaniana explorada por Jésus Santiago para aprofundarmos a tese lacaniana sobre a droga, desenvolvida por Fabián Naparstek e, posteriormente, adentramos na clínica do excesso fundamentada por Domenico Cosenza, onde a toxicomania e outros soluções sintomáticas estão inseridas.

 

Referências bibliográficas:
COSENZA, D. – Clínica do excesso: derivas pulsionais e soluções sintomáricas na psicopatologia contemporânea. Belo Horizonte. Scriptum, 2024.
NAPARSTEK, F. – Introducción a la clínica con toxicomanias y alcoholismo. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2005.
SANTIAGO, J. – A pragmática lacaniana: inconsciente e sintoma não sem o tempo e o corpo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2024.

VII Encontro da Rede Toxicomania y Alcoolismo – TyA Brasil.

Quando a droga se torna uma solução: desafios da interpretação

ARGUMENTO

Alessia Fontenelle, Cassandra Dias, Mauro Agosti, Maria Célia Kato e Maria Wilma Faria – Comitê Gestor VII Encontro TyA Brasil.

O analista opera pela interpretação. Mais do que acolher o sofrimento e a queixa, uma análise visa produzir efeitos ao tentar localizar e cingir o modo de gozo em questão. Esse é o diferencial da psicanálise em relação à terapêuticas que buscam uma pedagogia do gozo, seu controle e reeducação. “Nada de escuta sem interpretação”, nos assinala Jacques Alain Miller. [1]

Cabe, portanto, ao analista a difícil tarefa de como apontar – muitas vezes, na repetição – a satisfação incluída na queixa daquilo que traz sofrimento.

Sabemos que não é fácil abrir mão do mais de gozar incluído no sintoma, ainda mais quando se trata de formulações sintomáticas nomeadas por “novos sintomas”, a exemplo das toxicomanias, quando não se pode contar – via de regra – com a abertura ao inconsciente e com o amor ao saber.

O corpo como primeira interpretação da ferocidade do gozo, se apresenta, muitas vezes, trazendo o sujeito até uma instituição ou a um analista. Mas nem sempre a ruína é razão suficiente para promover uma retificação dessa posição. A opacidade do gozo autoerótico e sua fixação instalam um circuito iterativo onde as manobras no tratamento tornam-se mais estreitas.

“É preciso que haja um limite ao monólogo autista do gozo. (…) A interpretação analítica faz limite.”[2]

É em busca desse limite que a ação analítica se orienta: visando uma “solução de desejo”[3] ao provocar a produção de ficções no lugar da pura fixão de gozo.

Pois se o gozo não pode ser negativizado, “(…) pode certamente ser deslocado, pode ser distribuído, metonimizado de outra maneira (…)”.[4]

Portanto, a função do analista no contemporâneo não seria apenas a de não validar a fabricação em massa dos objetos de gozo mas, sobretudo, a de poder deter-se no “x” do gozo sinthomático de cada sujeito procurando afetar a relação com esse gozo, tornando-o menos destrutivo e automático para o sujeito.

“Tomar o excesso ao pé da letra” [5] implica encontrar o caminho da interpretação para que o gozo escape ao autoerotismo do corpo e encontre um enlaçamento possível no campo do Outro.

Nesse sentido, interrogamos: como interpretar na clínica das toxicomanias?

O VII Encontro da Rede Toxicomania e Alcoolismo do Brasil propõe recolocar essa questão em debate, tomando a interpretação como operador fundamental da direção do tratamento. À luz do último ensino de Lacan, a psicanálise é levada a interrogar as condições em que uma interpretação pode incidir sobre o gozo sem alimentar a produção de sentido. A interpretação que pode ser eficaz nesse campo é aquela que opera sobre o real da repetição sintomática, para reduzi-la através da palavra.

Pois, quando a droga ocupa o lugar de uma solução diante do real, qual seria a incidência da interpretação no sentido de fazer surgir algum lampejo do inconsciente transferencial a partir do inconsciente real, ligando o gozo ao Outro?

Em torno dessas perguntas o Encontro faz o convite para a discussão da experiência clínica contemporânea através da produção dos Núcleos de Toxicomania que compõem a rede TyA Brasil e que endereçam ao VII Encontro a elaboração de suas linhas de investigação clínica.

Convidamos a todos aqueles que desejam aproximar-se dessa pesquisa tão instigante para estar conosco em Florianópolis, no dia 26 de novembro, de modo presencial ou virtual, para acompanhar e participar do trabalho dessa comunidade.

 


[1] MILLER, J. A. – In: Pharmkon Digital número 4. Disponível em: https://pharmakondigital.com/wp-content/uploads/2026/01/Pharmakon-04-PT.pdf
[2] MILLER, J. A. – O monólogo da aparola. Disponível em: http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_9/O_monologo_da_aparola.pdf
[3] SINATRA, E. Adixiones. Argentina, Olivo: Grama Ediciones, 1a. ed. 2020.
[4] MILLER, J. A. – Há, não há. In Scilicet: Não há relação sexual. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise, 2025, p 28.
[5] GRILLO, C; et al (Organizadores). Clínica do resto, clínica do excesso, clínica da borda: uma experiência do Janela da Escuta. Belo Horizonte: Scriptum, 2026 p 27.
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